Fevereiro 23, 2012

Que é isto?

Porque raio não viu ele aquela maçã que estava naquela macieira?
Pensando naquilo que não queria e sentindo o que não devia, por várias vezes passou por baixo daquilo que procurava, sem saber o que queria, estando por demasiado tempo alheado relativamente àquilo que lhe convinha. Por isso, a maçã esperou, esperou e esperou, aguardando o momento em que ele esquecesse aquilo que não devia pensar, e aquilo que não devia de todo sentir, para lhe cair oportunamente quando ele não a procurasse sem saber que a procurava. A maçã deveria apenas tornar-se no único pensamento e no único motivo para ele sentir o que deveria sentir. Unicamente.
Quando a maçã caiu finalmente, o tempo era já escasso, o tempo para a saborear tornou-se bastante diminuto relativamente ao sabor prolongado que lhe tinha sido prometido. Mas ele não se importou, porque a única coisa que ele fundamentalmente queria era que ela lhe caísse em cima, sem saber verdadeiramente nada sobre a cor que ela teria, o sabor que ela teria, ou sequer que seria uma maçã que ele fundamentalmente queria, sem saber que era a única coisa que precisava.
Aquilo que ele saboreou enquanto a trincava, por ser algo unicamente seu, não se preocupou em perceber o que significava, e muito menos se deu ao trabalho de o perceber para o explicar aos outros que, como ele o tinha feito, procuravam uma maçã que não sabiam que era uma maçã, e a procuravam sem saber que a procuravam.
Porque tudo isto é egoísta... Porque o tempo que há é muito pouco e não se pode perdê-lo em explicar aos tontos que, como ele o tinha sido e como ele tinha feito, ainda não A viram e ainda não A foram objectivamente colher, porque ainda não aprenderam a olhar para cima ou não aprenderam ainda a esquecer tudo aquilo que não deviam pensar ou sentir para poderem deixar que a Maçã Lhes caísse em cima.

Agosto 27, 2010

Orgia de natas.


Sentia a boca salgada pelo pescoço dele. “Só mais um bocado e estamos lá...”, o brilho do suor ao sol dava-lhe um aspecto de fruta madura pronta para morder.
Maldito deserto onde aqueles dois palhaços, ditos amantes de luar, se meteram a divagar, aproveitando a soltura dos pés escaldantes para se perderem em meia dúzia de palavras sem sentido. Algumas delas, abençoadas porque sem pecado existem, podiam simplesmente ser culpadas pela ausência de água que se perde no suor aparentemente brilhante. Memórias adulteradas pela cabeça quente germinavam em amo-tes sem sentido, mas mesmo assim abençoados porque de sexo por enquanto pouco tinham.
“Já vejo a torre!” Atrás das raquíticas árvores e silhuetas de arbustagem, a ponta escura do edifício cuneiforme era água para aquelas almas sedentas de casa. Entre olhos aliviados e sorrisos de alívio, o sino longínquo dava-lhes as boas vindas ao compasso de gargalhadas sufocadas pela emoção. “Quanto tempo terá passado mesmo?”, pensavam as cabeças em silêncio. A responder-lhes no presente, o som das cinco badaladas ritmava a promessa de retorno nestes dois corações esfomeados.
Entraram naquela torre que lhes apareceu pela frente. Entraram e não saíram – a porta que fecharam pelas costas desapareceu. Pela frente tinham um recinto coberto de almas em estado lascivo prazeirando-se de diversas maneiras; nunca se deixaram distrair por aqueles dois que de carne e corpos nus nada percebiam. “Sou virgem. Naquilo que por entre as pernas nasceu comigo nunca sequer toquei – tenho o medo de me tornar uma maria virgem e prenhe.” “Eu também virgem sou; nunca naquilo que tenho no meio das pernas toquei pelo medo de ser o zé culpado por emprenhar marias virgens.”
“E agora? Que espaço há aqui para nós?” Olhos em linha com sombra de desejo, lábios rígidos em reprovação... O que deles era esperado, entre o medo, a culpa e vergonha, despiram-se as folhas e os véus da resistência... “E agora?” Nas memórias das vozes lembradas, o bem e o mal agem de forma clara, sem dúvidas de avaliação. Mas às cinco horas da tarde, depois da travessia, da fome e da sede, descobrem-se mais bocas para saciar. “E agora... abre-se para ver como é...”
Depressa se desculparam porque das palavras dela nenhum deles ganhou o sangue nos locais certos para abrir e selar o que fosse. Despiram-se sim e, de joelhos no chão húmido de fluidos, juntaram as mãos e tentaram as maneiras dos missionários antigos, acreditando que alguma daquelas outras almas em pecado os ouviriam naquilo que eles cuspiam. “Está ali uma boa faca para testar os pescoços dos dois palhaços virgens”, diz alguém. E com isto morreram os dois cabritos, sangrando o que tinham nas veias nos fluidos cuspidos pelos homens e escorridos pelas mulheres. A batalha travada nas grandes poças formadas foi vencida pelo prazer da orgia.
Dos olhos vítreos a pouca luz contida estende-se até ao eterno. Os sabores, os aromas, os sons marcados nas suas histórias demoram-se nas résteas de consciência. E naquela memória de um verão escondido, quente e corrente como a fonte visitada, o tacto e o riso dos olhos celebram a imortalidade da inocência. Já não se fecham os olhos, já não se serram os dentes. Num último bater de asas dos pulmões desfaz-se a teia do momento da vida e espalham-se gavinhas dos últimos desejos presos ao corpo... Paz... Alívio... Fim...
Um fim puramente térreo. O que as duas inocências mortas poderão ou não descobrir no paraíso prometido não interessa já nesta pequena realidade; eles não são os personagens de que se escreve a história. A realidade da história é descoberta naquilo que se descobriu na clausura da sala inundada de fluidos de felicidade provenientes das aberturas e selagens de que os puritanos não se conseguiram cobrir. A história está contada na vida que não aceitaram, por medo de mitos do tempo da maria que se diz cachucha. A nata está no óbvio da vitória do lascivo sobre uma semente de puritanismo.

(escrito em conjunto com maria tc)

Novembro 17, 2009

Um conto desentendido.


“Não existe maravilha maior neste mundo do que perder alguém. Não existe nada mais belo do que ver quem mais gostamos ser enterrado ao nível da merda deixada por todos aqueles pequenos e adoráveis animais que se passeiam pelos bosques arromantizados. As lágrimas são de alegria, uma alegria nua e crua, primária, que nos rasga a cara com um sorriso aberto assim que relembramos a pessoa enterrada. E com a alegria somos constantemente interrompidos por suspiros profundos de alívio, aquele género de suspiros que nos limpam toda a podridão e frustração agarrados ao coração, ao órgão mais poético incrustado no corpo humano – isto para aqueles que se deixam acreditar; criando assim uma espécie de vómito libertador. Só falta mesmo dançarmos, sorridentes e chorosos, enquanto vomitamos a podridão e agradecemos o facto de a pessoa que mais adoramos nos ter deixado, mergulhado numa poça de estrume de pequenos animais de bosque.”

Os escravos brancos que são arrastados pelo caminho de pó, lama, e cadáveres olham todos extasiados para aquela mulher a dançar nua e sozinha, suada com o calor da fogueira sobre a qual salta constantemente, num pequeno transe. Debaixo dos pés dela, os escravos brancos acorrentados vêem um tapete de porcaria, dejectos de pessoa asseada. Estão eles todos de soldado em alerta e pronto para a batalha, e a força de todos aqueles membros testam a capacidade de controlo dos seus pastores. São cães de língua esvoaçante perante uma cadela com cio.

Então era uma vez, não se sabe bem quando, uma senhora muito bela, o sonho de todos os homens e também mulheres, que vivia não se sabe bem onde, mas provavelmente num local tão belo como a sua beleza. Apenas os e as virgens se gabavam de uma noite qualquer, quando eles quisessem, – dependia apenas do momento em que contavam a história aos ingénuos que neles acreditavam – terem invadido a casinha bonita da bonita mulher e de lhe terem mostrado o verdadeiro significado do amor, aquela coisa que pelo meio de espadas e flores se incrusta na poesia do coração. É este o início de história: linda mulher e povo enfogado em curvas e noites de prazer.
O desenvolvimento da história começa no momento em que a menina bonita, jovem bela, mulher madura, descobre o que é afinal a cidade e, com ela, as outras pessoas alheias do seu ego – incluindo os homens. É lá que conhece o seu jovem futuro marido, o primeiro homem, e único ser, a deitar-se com ela. Sabemos exactamente o que ela lá encontra, mas ninguém nunca saberá o que raio motivou os seus pequenos pés a mexerem-se ao antro de podridão e decadência que era a pequena cidade na altura. Daí que provavelmente esta seja apenas uma história no tom de conto, sem realismo nem veracidade no seu processo. O que interessa agora é que o sortudo do homem ganhou naquele dia o direito de fazer qualquer tipo de explorações naquele pedaço de beleza encarnada. Os outros fizeram simplesmente planos para o matar.
O desenvolvimento da história continua ainda com a mulher e o marido a serem felizes sabe-se lá onde, mas de certeza durante todo o dia e, com sorte, a maior parte do dia debaixo ou em cima de lençóis. O amor, segundo contam todos os desentendidos e ludibriados daquela terra, reinava naquela casinha dela, a casa mais bela daqueles arredores.
Um dia qualquer, ninguém sabe bem quando, obviamente, o marido resolve sair de casa para passear na zona envolvente da casa, uma zona toda ela bela, grandiosa, mítica. Se tinha montanhas, vales, planícies, prados, flores ou o que seja, depende apenas e somente da imaginação de cada um, seja de quem conte a história, verdadeira ou não, ou de quem a ouve. O marido morre. Aparece morto, degolado e afogado num pequeno ribeiro perto da bela casa da bela mulher.

“Afinal quem és tu realmente, o que é que te move, o que é que te motiva? Já ouvi muito sobre a tua beleza e posso-te assegurar que, apesar de me ter preparado para te ver, conseguiste surpreender-me. Mas o que tu mostras pode não ser nada. Diz-me o que há em ti”. O homem sentado no triciclo espera pela resposta da senhora dona beleza, enquanto acaba a cerveja que segura na mão direita. Aquela, atónita e quiçá exasperante, tenta somente controlar aquilo que respira, pois é a primeira vez que vê um homem. Sim, um homem. E que homem: o típico senhor bêbedo fumador, sexista e pseudo intelectual, bem parecido e de alguma maneira impressionante. “Não falas, menina bonita? O que é que te move?”, e acende um cigarro, como se fosse dono do tempo e o tivesse de sobra para esperar o que necessário fosse até que a mulher dos ermos lhe respondesse.
“A minha beleza”. Esta é a resposta dela, simples e completa, suficiente e verdadeira. O homem do triciclo, que ninguém sabe que fazia por aquelas paragens ou como tinha encontrado a menina, brevemente mulher, arranca com o triciclo pedalando em direcção à cidade, por caminhos de bosque não bonitos, mas antes sombrios e sujos, aliás, de acordo com os animais fofinhos que enterram os mortos com a sua merda.
Foi após este episódio que a senhora resolveu ir à cidade, sabe-se lá porquê, e foi após este episódio que conheceu o seu futuro marido, e foi após este episódio que a senhora viveu feliz com o seu presente marido, e foi após este episódio que o marido da senhora morreu. Maldito homem do triciclo.

“Agora podemos ser felizes juntos, tu e eu, sem ela, a bruxa”, diz o senhor ganso para si mesmo, sentado numa pedra com vista para a cabeça degolada do outro homem e para os gritos estridentes e violentos da senhora bela, agora viúva, que se mantinha de joelhos ao lado do ribeiro a chorar para o sangue do morto.
A história, em tom de conto, podia acabar aqui, mas é necessário dar introdução ao início com o fim contado pelos avós dos avós. Já vimos que o senhor bêbedo e condutor de triciclos teve alguma coisa a ver com assunto da defuntice do desgraçado degolado, mas ninguém sabe dizer o quê exactamente. E vimos também que o senhor ganso, amante platónico do desgraçado degolado, foi quem afogou e degolou ou degolou e afogou o desgraçado degolado e afogado ou afogado e degolado. E a senhora mais bela daquele mundo? Que lhe aconteceu?
“Não existe maravilha maior neste mundo do que perder alguém. Não existe nada mais belo do que ver quem mais gostamos ser enterrado ao nível da merda deixada por todos aqueles pequenos e adoráveis animais que se passeiam pelos bosques arromantizados. As lágrimas são de alegria, uma alegria nua e crua, primária, que nos rasga a cara com um sorriso aberto assim que relembramos a pessoa enterrada. E com a alegria somos constantemente interrompidos por suspiros profundos de alívio, aquele género de suspiros que nos limpam toda a podridão e frustração agarrados ao coração, ao órgão mais poético incrustado no corpo humano – isto para aqueles que se deixam acreditar; criando assim uma espécie de vómito libertador. Só falta mesmo dançarmos, sorridentes e chorosos, enquanto vomitamos a podridão e agradecemos o facto de a pessoa que mais adoramos nos ter deixado, mergulhado numa poça de estrume de pequenos animais de bosque.” Sim, isto foi o pensamento da mulher, deusa da beleza, no momento antes de mergulhar no ritual alienado e estranhamente gráfico presenciado pela fileira de escravos brancos com lanças em riste apontadas para ela. Agora, com o seu amado no mundo do deus nosso senhor – amén – ela sentia-se livre. Livre de voltar de novo para ela própria, para o seu ego, a sua essência, livre de se voltar a amar sem ter que amar mais ninguém.
Quando o ritual de despedida terminou (deduzem os mais e menos desentendidos neste conto ou história que tenha sido um ritual de despedida pelo defunto), a senhora, que antes abominava os pequenos animais do bosque, começou a guardar algum respeito pela porcaria com que estes não embelezavam o ambiente mas que com a qual afundavam as pessoas menos queridas (quer conscientemente ou não). Os últimos a deitar os olhos na sua beleza foi o bando de escravos brancos que, no momento do ritual, se encontravam a caminho de mais um eterno dia de escravidão. Podia ser que amanhã eles voltassem a ver uma mulher bonita com que pudessem hastear a bandeira, sempre em sinal de profundo respeito, obviamente. Fim.


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Setembro 08, 2009

Uma praça.


Quem diria que um dia todos eles estariam ali, no centro daquele pequeno mundo, uma pequena futura praça de sangue, cada um a fazer a representação dos próprios ideais, alguns deles fazendo a representação de um qualquer ideal, sem significado para o próprio. É neste recinto, arena, que é atirada a primeira pedra, aquela que incendiará todo o combustível humano ali concentrado, enquanto que algumas figuras míticas, e místicas, altos representantes de Tudo, assistem no topo de algum edifício antigo, representados e personificados por aquelas figuras humanas que são as únicas a não representar algum tipo de ideal (os próprios ou qualquer um) lá em baixo. Temos assim o cenário de uma batalha de ideais.
Antes da primeira pedra voar, o dia teve que nascer algures num dos extremos do céu, voando sobre aquele mundo que ainda descansava de uma querela futura, e preparando a luz e as sombras para a produção que iria tomar forma nesse dia. O dia só retomou ao seu lugar no céu quando analisou tudo aquilo que era de analisar por ele: não se pôde esquecer das sombras grandes nas traseiras dos edifícios, das sombras carregadas nos pequenos becos, das sombras simples nas fachadas e dos primeiros pequenos toques de luz em tudo aquilo que o olhava de frente. Depois disto, esperou.
Numa das ruas daquele pequeno mundo caminha um dos personagens míticos, e místicos, vestido já a rigor com o traje característico, caminhando desde as sombras carregadas de um pequeno beco. Este senhor, que assim o quer que o designem, “Sr.”, vem simplesmente vestido de pessoa, porque neste mundo não há ainda toda a gente que nele acredite, como entidade. O traje dele é apenas um manto negro que acaba num capuz e o prende na cintura por um corda, enquanto que uma das suas mãos segura o instrumento do seu ofício, o símbolo do seu poder. O Sr. caminha então, vestido de pessoa.
Também numa das ruas daquele pequeno mundo, quem sabe se a mesma em que caminha o Sr., se passeia mortalmente um outro representado mítico, ou místico, obviamente que também já trajado a rigor para o evento social que se avizinha. Este que passeia no sentido da luz que olha de frente o dia para as sombras carregadas de algum beco dá pelo nome de “cristo” – não pode ser caracterizado pela maiúscula porque neste pequeno mundo em transformação nem toda a gente lhe atribui esse significado, o de cristo com maiúscula – e vem louro, de cabelo curto e olhos azuis, com um smoking branco, mas descalço. Temos assim aqui o cristo de minúscula, a caminhar também, e também vestido de pessoa.
Na praça em que toda a cerimónia, evento social, ou simplesmente batalha ou conflito vai existir, apenas já marca lá lugar um pequeno personagem, se comparado com o Sr. ou o cristo, que dorme ainda, enrolado sobre si próprio e com uma t-shirt parcialmente rasgada onde ainda se consegue ler a palavra “diplomacia”. Visto que ainda dorme e não existem motivos maiores para o acordar do que saber o nome dele, vamos deixá-lo ali à espera, naquele banco de pedra com vista para a fonte de água suja no centro da praça, enquanto lhe damos um derivado da camisola como nome: “diplomata”. O diplomata dorme, e dorme apenas debaixo da sua t-shirt, vestido como sempre.

O fumo de um cigarro espalha-se lentamente pelo ar ainda fresco do dia, oferecendo-nos olhos para a vermos. Não, para A vermos, pois o nome dela é simplesmente Ela, e se o pai do cristo merece a maiúscula em todas as suas designações simplesmente por se chamar Ele, Ela também merece o nome que tem.
Ela bafeja o tabaco no ar enquanto, sentada à porta daquela casa, não sabe de quem ou se ainda de alguém, espera por alguma coisa. E enquanto espera, observa o homem que está à beira da fonte, a lavar a cara com a água suja.
Um cão negro - provavelmente vadio, pensa Ela - cruza o caminho do Seu olhar e senta-se de frente para Ela, sem qualquer tipo de expressão, se é que expressões humanizadas são possíveis de atribuir a canídeos. Para ajudar à aparente ausência de expressão, os seus olhos brilham negros para os d’Ela, que brilham azulados. E enquanto o tabaco queima pendurado entre os seus dedos, aparece, algumas portas abaixo, um grupo de pessoas estranhamente vestidas, com vestes que lembram o filme de Robin Hood dos anos trinta, a tocar tambores e pequenas flautas de pau. Contudo, e mesmo apesar da anormal energia que move aqueles “instrumenteiros” contentes, que parecem saltitar com alguma boa nova, desconhecida, Ela não repara neles graças ao transe de que sofre ao se afundar nos olhos do pequeno animal.
Quando Lhe surge alguma coisa para dizer ao negro cão para, de alguma forma, se libertar do seu olhar, os instrumenteiros aparecem na Sua frente, na estrada, e quase que falam por Ela. Quase que falam porque, apesar de não nada dizerem, conseguem atrair o animal para junto deles, que era precisamente o Seu intuito.
Aquelas palavras que Lhe surgiram na cabeça por lá ficaram, e Ela ficou assim sem hipótese de afastar o que quer que aquela superstição negra personificasse. Olhou para a cinza acumulada no cigarro e sacudiu-o, e quando olhou para a fonte o homem já lá não estava. Os instrumenteiros também já tinham desaparecido com o cão, continuando a espalhar pelas ruas ainda adormecidas uma mensagem que, chegando apenas às pessoas despertas, nada para estas significava, simplesmente porque nada dela compreendiam – era simplesmente música.

Ele entra num café, um dos primeiros a abrir as portas nessa manhã, senta-se numa cadeira de metal desconfortável e baixa o capuz negro – surge então um homem pálido, os olhos cinzentos e com uma réstea de cabelos brancos na sua quase calvice. É impossível para qualquer pessoa, crente ou não crente numa entidade, numa figura chamada Morte (que aqui é o Sr.), acreditar que aquela pessoa possa encarnar a tão terrífica figura. Os donos do estabelecimento, que são quem abre os bons dias ao café e que servem os primeiros madrugadores, na sua maioria solitários, não imaginam sequer por um instante na possível e verdadeira identidade do fulano sentado nas mesas de metal da esplanada, a apanhar de frente o sol que vai crescendo lentamente, e atribuem as suas estranhas vestimentas e a sua foice da altura de um homem à insanidade do personagem.
O Sr., que agora mostra uma pessoa, pede simplesmente um copo com água, e quando este chega, não lhe toca. De certeza que os donos do café não se importam que ele esteja simplesmente ali, afinal a clientela ainda é pouca e a lâmina que o acompanha parece estar afiada.
“Qual a minha história neste dia?”, pergunta para si a pessoa que representa o Sr. Esta questão arrasta por consequência uma outra, “quem vou matar e quantas pessoas vou levar para a sua morada final?”. “Bom dia”, diz o diplomata que acaba de chegar e se vai sentar na mesa ao lado – já existe a oportunidade de conhecer o nome dele, contudo, ao final do dia não será já necessário saber o seu nome, e por isso diplomata fica. O Sr. pára de pensar e olha para o homem que não o conhecendo o acabou de cumprimentar.
“Sabe-me dizer o que se vai passar aqui na praça hoje?”
“Não, mas na última vez que perguntei, já que não tenho maneira de saber a que dias andamos, ainda faltavam sete semanas para o carnaval.”, responde o diplomata, não se percebendo se está a ser genuíno na sua conversa ou se está simplesmente a tentar roubar um breve momento de humor da situação.
“Bem o sei. Que faz o senhor aqui tão cedo?”
A aparente impertinência do Sr. deixa o diplomata de pé atrás na conversa. Contudo, não se pode culpar um cego por não ver, não se pode culpar o diplomata por se defender da personagem mítica e mística que tudo dele sabe, não sendo assim impertinente em alguma situação.
“Estou simplesmente aqui, sinto que devo estar aqui por isso para aqui vim.”, responde.
O Sr. levanta-se, deseja um bom dia ao homem da t-shirt da diplomacia e caminha para o centro da praça, sem pressa alguma e olhando o topo dos antigos edifícios à sua volta, como se procurasse alguma coisa.
Queria apenas saber se as pessoas deste pequeno mundo tinham consciência do que as atraía para a praça, daí a questão colocada, e uma vez respondida não havia qualquer continuidade para a interacção com o diplomata. Por isso abandonou a mesa metálica.

As diversas lojas começam finalmente a abrir as portas. Já são dez horas, ali o comércio é tardio. Lojas de electrodomésticos, mercearias, postos de operadoras telefónicas, “bugiganguerias”, papelarias, stands de automóveis e algumas imobiliárias, todas elas combinam o melhor horário para se mostrarem ao público. O padeiro é o único que madruga verdadeiramente e, juntamente com os donos do café em que se sentou o Sr., são os únicos a não pertencer ao clube dos tardios combinados.
Na praça também começam a aparecer, gradualmente, porque são os últimos a fechar negócio ao fim do dia (se não contarmos com os cafés nocturnos e os restaurantes), todo o tipo de artistas, desde estátuas humanas a pintores, retratistas, desenhistas, tocadores de acordeão, malabaristas, cuspidores de fogo, etc.
A confusão começa a surgir na praça futura de sangue, e no meio da multidão não se adivinha se lá se encontram o Sr. e o cristo de minúscula. Mas um olho minimamente apurado distingue Ela e o diplomata, cada um de seu lado, nem dá para dizer se se conhecem ou não – é provável que não, ele apenas ali está porque sente que o deve, e Ela ali está porque não sabe onde deve estar.
Não são os únicos a não compreender na totalidade os motivos que os levaram àquele recinto, que se torna a cada instante mais anormalmente apinhado do que na rotina de outros dias. Como eles, existem muitas pessoas que ali não apareceram nem para passear, comprar, vender, roubar, encontrar-se com alguém, ou espiar alguém. Hoje, existem ali muitas pessoas que desconhecem.
O diplomata regressa às origens de hoje de manhã e visita a fonte onde molhou a cara. Ainda mal recuperou da bebida da véspera e pensa que já devia estar em casa para apagar o latejar da cabeça, mas continua ali. De alguma maneira começa a desenvolver uma afinidade com aquele local, começa a sentir-se em casa. O seu pensamento arrasta a sua mão para a superfície da água, ou lodo em algumas partes, e começa a passeá-la à superfície molhando as pontas dos dedos, enquanto que o diplomata se abstrai do que o rodeia e mergulha naquele pequeno ecossistema, que apenas inclui ele, a água e a fonte.

O som de tiros faz-se ouvir na multidão. Depois do choque inicial e de se ter verificado que não foram disparados naquele recinto, começam a surgir os habituais entendidos de rua a especular sobre se era metrelhadora ou revólver, os mais corajosos atirando ao ar possíveis modelos sobre os quais acham que ouviram falar há algum tempo atrás num programa qualquer na televisão. Apesar desta aparente calma que permite a discussão pelos cotovelos de onde tinha vindo o som dos tiros, existe muita gente que fica sem saber que fazer, se ficar, se ir embora antes que o autor se lembre de se aproximar dali. Os dois ou três elementos da polícia que ali se encontram começam a inventar justificações calmantes para a população, mesmo sem fazendo a menor ideia do que se tinha passado – nem os intercomunicadores tinham a resposta que eles queriam.
Num ponto alto de um edifício que rodeia a praça, instalou-se cristo. Tratou de arranjar um local em que conseguisse avaliar toda a praça com o olhar, não perdendo nada da acção lá em baixo. Só ele sabe o que se passa e o que se passará ali, não tendo sequer dito nada ao Sr., que aparece onde ele está pouco depois, perguntando o porquê do que se está para passar. “Não é relevante, preocupa-te com a tua foice nas pessoas certas.”, é simplesmente a resposta de cristo.
Ela levantou-se imediatamente do banco assim que ouviu os tiros e começou a olhar desesperadamente em volta, à procura da fonte dos disparos. Mas a única coisa que conseguiu ver foi um mar de gente com falas altas e um ou outro grito. As pessoas em grupo aparentam uma capacidade enorme de recuperar o equilíbrio, de voltar à normalidade – basta que não existam estímulos adversos (como foi o caso do som dos tiros) durante um breve período, e tudo volta à aparência de que nada se passou.
“Está atento, o pior vem aí.”, disse cristo ao Sr.

É então que o som dos tiros entra de novo, só que desta vez todos acordam, entre entendidos e não entendidos, que são metrelhadoras a disparar. E desta vez, além dos tiros mais próximos, distingue-se o terror de pessoas em pânico e as vozes em grito disparadas para o ar, numa tentativa desesperada de fuga da tempestadade gratuita de carnificina. São tropas que invadem o pequeno mundo daquela gente, encurralando-a naquela praça. O Sr. que está lá em cima atenta ao que se passa com um olhar de alguma surpresa, enquanto que cristo se limita a libertar pequenos risos perante a promessa do terror.
Começam a surgir em cada rua que dá acesso à praça, juntamente com carros e alguns outros brinquedos metálicos. Depois de dispararem alguns tiros ao acaso sobre a multidão, ferindo gravemente um punhado de pessoas, as tropas estacam, esperando alguma coisa. Já a multidão encolhe-se o melhor que pode tentando cada um não ficar na primeira fila. Mas por mais que retirem a última carruagem do comboio, ele vai ter sempre a última carruagem.
“A partir daqui vais ter muito trabalho.”, diz cristo para o incauto Sr.
No meio do instante breve de silêncio proporcionado pela imobilização das tropas e de todos os veículos de destruição e imponência, surgem umas gargalhadas das filas traseiras dos ofensivos, gargalhadas tipicamente de histerismo. E um personagem nasce daquelas filas traseiras de tropas: um homem completamente vestido de sangue, exceptuando os seus olhos, que são completamente brancos.
Faz uma entrada deslubrante e demasiado teatral na primeira fila de tropas, abrindo os braços para a multidão, como que em sinal de acolhimento. “Obrigado pela vossa presença, eu sabia que ainda era ouvido algures por estas terras. Divirtam-se!”, grita ele sorridente para os personagens à sua frente.
No recinto, as pessoas são engolidas por uma cortina comum de medo e a palidez toma conta das suas peles. Os que sabem comunicar com alguma entidade salvadora fazem-no agora, quer seja através de rezas ou através de telefones móveis, embora nenhum dos dois tenha qualquer efeito aparente: as rezas são feitas para o cristo que está no terraço de um edifício algures por cima das suas cabeças, enquanto que as entidades policiais, contactadas por telefone, são impotentes perante um exército, e o outro exército que então as pessoas reclamam terá que ser formado por elas próprias.
Uma pedra voa. A primeira pedra voa, dançando e rodopiando no ar desde a fonte até à cara do personagem de sangue, também ele representado numa pessoa de carne, como acontece com cristo e o Sr. Esta pedra toma a forma da palavra e da coragem de uma única pessoa, o diplomata, que se planta entre a multidão e as tropas, de frente para o homem de sangue, atirando-lhe algumas palavras que nem cristo nem o Sr. conseguem ouvir.
“É melhor mudarmos de sítio.”, diz o cristo de minúscula, o senhor daquela população de marionetas vivas. “Espera.”, responde o Sr.
Espera porquê?, perguntar-se-á cristo. Mas para ter a resposta basta ver que o recinto precisa da atenção do Sr. E do meio da multidão surge um cão negro a passear em direcção ao diplomata, esquivando-se por entre as pernas de pessoas apertadas umas com as outras.
O diplomata foi posto de joelhos pelas tropas e, antes de lhe apontarem a arma fatal, conseguiu ver ainda aquele animal negro - significado de alguma coisa, de certeza, mas que ele não se lembrava - antes de deixar de poder ver qualquer coisa neste pequeno mundo. O diplomata foi lembrado como o “diplomata”, o primeiro a abandonar de forma etérea aquela praça que ganhava a primeira mancha de sangue, em defesa de ideias que nitidamente não concordavam com as do homem que empunhou a arma assassina.
Com este exemplo, todos e cada um daqueles indivíduos que se mantinham juntos longe das armas das tropas, ficaram a saber o que estavam ali a fazer, estavam ali para defender e lutar por aquilo em que acreditavam, e, sabendo qual o destino inevitável da sua presença na praça, a população perdeu o medo, pois quando acreditou que já estava morta, tornou-se “imortal”, e transportou-se assim em direcção aos ofensores.
Ela, tendo visto o animal negro logo ao início do dia enquanto fumava o cigarro, teve o seu destino delineado logo a partir deste momento, tal como aconteceu com o diplomata quando estava de joelhos e tal como aconteceu com grande parte das pessoas naquela praça. Quase todos viram o cão negro a passear diante dos seus olhos, antes do inevitável ter acontecido.

As tropas acabaram por ser vencidas no campo pelo terror de verem e matarem pessoas sem medo. Aquelas pessoas que ficaram na praça, ficaram com o seu destino reservado para futuros dias.
O senhor de sangue foi encontrar-se com os outros dois, cristo de minúscula e o Sr., numa rua que dava para a praça. Nessa mesma rua despiram os seus corpos humanos e assumiram as suas entidades de sempre, tornando-se invisíveis para as pessoas deste pequeno mundo. E caminharam pela praça, por cima dos defuntos, em direcção à luz, às sombras e ao submundo.
Nunca passará sequer pelo pensamento destas pessoas sobreviventes que as personagens míticas ou místicas, em que muitas não crêem, assumiram o seu papel neste dia. Nem mesmo o grupo de instrumenteiros, que se volta a mostrar ainda na praça, lhes consegue mostrar a verdadeira mensagem que cantam desde que o dia se mostrou.

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Agosto 06, 2009

O homem dos pregos.


É claro que estando ele sozinho e querendo ele a presença, apoio ou existência de alguém, terá que usar a réstia de imaginação que alguém lhe pôs na mioleira, isto partindo do princípio que qualquer coisa que dê origem a qualquer outra coisa mereça o nome de alguém.
É assim então que descobre o poço de água suja, podre, verde. Coloca-se a jeito, desviando um ou outro estorvador, seja de que espécie for, e começa a olhar para baixo, brilhando os olhos como uma criança e fazendo assim inveja àquela água suja que não brilha desde que apodreceu. Não sabe bem o que espera, há-os por aí que acreditam em mulheres encantadas com alguma esquisita ascendência batráquia que surgem do fundo de águas como esta. Mas ele não a espera, na sua procura por alguém que o acompanhasse – está mais que visto que os homens não podem ser criados abandonados, começam imediatamente a esperançar a hipotética vida de qualquer coisa, qualquer coisa desde tudo a nada, passando pela mistura dos dois – ele encontrou o seu belo rosto. Belo vai ter que ficar, simplesmente porque o único juiz ali é ele...
Mas seguindo, o tempo que ele se demorou ali apenas a admirar a sua frontal deu bem tempo a que alguém fumasse calmamente um cigarro, só é pena que na altura em que isto se deu não houvesse ainda ninguém que tivesse já descoberto este pequeno prazer – estamos bem perto aqui dos tempos do adão e da eva, todos sabendo criados por quem.
Quando finalmente acabou aquilo que tinha estado a fazer, começou a pensar, genuinamente, naquilo que iria fazer dali para a frente – se tivesse hoje a pensar, pensaria antes naquilo que iria fazer da vida. E que conclusões consegue ele tirar da sua réstia de imaginação? Ora bem, poderia simplesmente voltar para casa e dedicar-se à carpintaria, como qualquer ser (homem) não especial e sinceramente normal.
Mas não, pensou ele, isso da carpintaria fica para se não conseguir sucesso com aquilo que acha que faz falta à humanidade (seja o que isso for, é o que dá as palavras engraçadas, põem qualquer um a falar delas). E o que faz falta à humanidade, segundo o que, por graças e milagres ou o que quer que seja perto do divino e inexplicável, conseguiu depreender do que viu na belíssima água podre, é o seu belo rosto. Barba por fazer, cabelo rebelde e alguns pregos nas mãos é o que falta para o salvamento daquela palavra engraçada, a dita humanidade.
E foi assim que surgiu um novo culto. Bastou um homem, sozinho e abandonado numa altura em que bastante precisava, coitado, mostrar a sua cara a um espelho sujo e temos uma nova onda de encarneiramentos. História simples. Mas falta o que mais interessa de acrescento e fundamento ao surgimento do culto do homem dos pregos. Depois de ter decidido sobre o novo culto, ele achou que faltava ainda um subculto – não bastava o culto do seu rosto, teria que haver também o culto do homem, e não do homem relativo à humanidade. Precisou para isto apenas de baixar as vestimentas e revelar às águas o pequeno material de que era feito.
E temos aqui então a estupidez fálica do momento que ditou daí em diante, e por muito tempo, a vivência da mulher.

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Julho 31, 2009

Sem.


Ele está cansado. Não sabe o que diz, mal percebe o que pensa, tem dificuldade em dizer o que pensa e percebe, e o que pensa e não percebe. Mas ele está ali, toda a gente lhe diz isso pelo menos, tu estás aqui ou ali ou onde quer que estejas. Na cabeça dessa toda a gente, esta pequena coisa, as suas coordenadas, valem de muito, senão tudo, estando ele onde estiver, desde que esteja, e que esteja com. “Com”, dizendo isto tudo o que se quer pela ausência do nome de alguém desejavelmente associado. Isto na cabeça dessa toda a gente, que parecendo muitos ou poucos valem por todos mesmo assim.
Devia ser suficiente para ele, mesmo cansado, absorver ou perceber a importância da pertença a algum sítio, qualquer sítio, com. Simplesmente com. Mas ele, cansado e mal pensante, e não engolindo as palavras que valem de todos, tenta alcançar aquilo que pouco ainda pensa que se lembra. E este pouco, se conseguir chegar aos ouvidos dele, diz-lhe que ele, estando ou não estando lá, com ou sem com, terá de dizer alguma coisa.
Mas não qualquer coisa. Ele pensa que se lembra e julga que alcança algures na sua míriade de ideias trocadas um amo-te. Amo-te não serve, é simplesmente qualquer coisa dita por qualquer gente, e talvez até toda a gente. Depois é-lhe dito o odeio-te, mas outra vez não serve. Pensou assim que qualquer coisa que seja dita, mesmo por ele, cansado e sem saber o que pensa ou não, o que diz ou não diz, deve simplesmente ficar abandonada a meio caminho. Meio caminho entre ele e quem seja, se o chegar a ser. Tendo ele que dizer alguma coisa, a coisa, e não a encontrando, nos seus pequenos e confusos pensamentos ele acredita que deve tudo então ficar por dizer, estando com ou sem com. Mas para estar com sem lhe dizer nada, ele não consegue. E para estar com e dizer-lhe simplesmente qualquer coisa, para ele não serve.

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Junho 06, 2009

Dança dançante, dança.


Não que ele seja qualquer outra coisa que todas as outras pessoas aparentam não ser, suicida, ou amigo de outras coisas além daquilo que se vê da vida, mas dançante é ele, dançado na corda que vai de um lado ao outro, não se sabendo bem que corda, apenas uma corda lá no alto ou com os pés lá bem em baixo. Este amigo de todos nós, por pena ou proximidade, sonha apenas que flutua de um lado ao outro de uma miniatura de pesadelo, chamado a corda de um lado ao outro – todos nós, amigos de desconhecidas e várias razões por ele, esperamos somente que a corda não acabe na garganta da pobre criatura. Lá o outro, lá em cima ou lá em baixo, um dos amigos de diferentes razões por ele, conhece as próprias razões da dança do moço e, rezando ao outro do lado oposto, espera, não acreditando que o vento, a que o folclore insiste em designar lançador de linhas, não arranque a única que ainda prende o amigo das próprias entranhas lá em baixo, ou cá em baixo. A outra moça, que mora a meio caminho entre a corda e as entranhas, conta à outra porque é que o dançante dança danças na corda de um lado ao outro, e então conta que o pesadelo que ele pensa que sonha não é um ar nocturno que veio ter com ele, foi um ar nocturno que ele quis tentar romper, atravessando-o: o moço, quando ainda neste lado da corda, vendo sempre o mesmo em frente, olhou para o lado e apareceu-lhe ouro nos olhos. O resto da história vai contar a corda. Gozando com o que não acredita que sonha ele mostra aquilo que sabe dançar, cortando a normal monotonia daquilo a que os amigos de inúmeras razões por ele esperavam, dele. E então fez-se mais uma história de era uma vez, quando a corda ou as linhas do vento o atiraram, lá ou cá para baixo, passando pelo nariz da outra moça que sabia as suas razões e acabando com as entranhas a contarem, a gritarem, a espalharem os segredos do seu coração aberto, que ainda batia nervoso perante uma imensa multidão de amigos de nenhuma razão por ele. Conclusões não se tiram das entranhas já podres por agora daquele moço dançante, apenas da corda de um lado ao outro que ainda lá em cima está, ou cá em cima está, à espera de outro dançante para dançar.

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Junho 02, 2009

O mistério das humidades.


Chegaram os dois à beira daquele precipício. Contudo, apesar da altura a que quase voam, o que eles alcançam de forma quase submissa são aquelas nuvens, negras, carregadas, que estão estampadas ao nível dos seus olhos, lá longe no céu, nuvens que se diz carregarem a fúria de um deus, sem tomates, mas que eles acreditam serem fruto de alguém bem mais razoável, e capaz. Mas isto de quem foi capaz ou quem teve os tomates ou não de criar o que os dois têm vidrado nos olhos ou sequer aquilo que abismam à sua frente mas que parecem ignorar não é de, muita, relevância para o pequeno conto de que são realmente criadores. Aliás, o conto típico, mas neste caso único, que engloba os dois nem começa realmente com um negrume furioso lá nos céus de quem quer que os tenha criado. Mas como maneira artística de se criar qualquer coisa, as nuvens e os olhares pasmados e a possibilidade de um deus sem tomates fazem aqui falta.
Os ventos lentamente começam a soprar e a cruzar-se naquele topo sem geografia conhecida. E a chuva acompanha, se calhar benzendo-os para aquilo que apenas ainda sonham fazer, em segredo, cada um. O que a chuva molha também só interessa aos demais que apanham com ela e não tanto as estes dois que são antes molhados por águas ou humidades de outras fontes, os sonhos que albergam. São desconfiados, mas apenas a revelação do prazer posterior lhes poderá dizer de facto o que se afoga nos sonhos de cada um.
Parece afinal que já foi dito e escrito alguma coisa. Só a misteriosidade das humidades é que se encontra ainda apenas escrita e não dita – mas tudo a seu tempo. Já se percebeu afinal que ele quer coisas de mulher e tem desejos de homem e que ela querendo coisas de homem tem desejos de mulher. Aqui está a água da fonte, ainda sombria mas a seu tempo límpida. Afinal, foi já dito que o conto não começa no céu. Começa sim nesta água, turva de início mas que tenderá para a pureza e transparência semelhante ao irreal - o deus sem tomates lá o saberá, detentor de grandes e várias irrealidades. Quer-se apenas afinal descobrir se o fim acaba puro e transparente. Comecemos.
Vamos seguir o que os olhos dele vêem... Os seios. Brancos, não excessivamente volumosos, afinal as costas dele não dão para tanto, mas suficientemente preenchidos para ele se poder contorcer nos seus alicerces a sonhar com as delineaturas rosadas de um mamilo já de si deliciado com os olhos alheios, apenas um pouco mais abaixo, apenas um pouco mais abaixo. Mas escondido. Infelizmente aquela comunidade de moralidades em que vivem ainda não permite às senhoras satisfazer visualmente os contorcionismos interiores de qualquer olho de homem alheio, e é por isto que ele não alcança a firmeza restante dos seios dela – até o vestido é quase insuficiente para impedir o desmistério.
Mas continuando com os perspicazes olhos dele... Cautelosamente, e verificando-se constantemente da veracidade da avaliação dos seus olhos confirmando com o olhar, sempre o último olhar, a beleza daqueles dois níveis arredondados, belos, - sabe lá ele descrever o que seja com uma segunda cabeça pensante – ele passa lentamente um pouco mais para cima, onde não há vestido que cubra qualquer mistério, e deixa a sua outra personalidade avaliar de cabeça erguida a pele macia que a ela percorre até perder a concentração e a lucidez nos lábios. Aí voltam outros tipos de truques de circo aos alicerces do homem, malabarismos e contorcionismos. São lábios que lhe despertam a loucura ao lhe verem uma infinidade de utilidades, nele obviamente – aqui, os sonhos e desejos, ou seja, a fonte começa a regar em demasia a pouca cabeça do fulano de tal maneira que a água lhe começa a brotar pelos olhos abaixo, de tão húmida que está.
Coitado, tão choroso já e a festa ainda não começou.

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Maio 04, 2009

À espera que a loucura nos leve.


Ele olha esgazeado para o tecto amarelo, sujo, dificilmente através das lágrimas dos seus olhos cinzentos. Mas olha, atento. Ao seu lado, com ele deitado, está o fantasma da existência dela, uma pele branca com olhos azuis e cabelo acastanhado exercendo a pressão suficiente com as suas curvas perfeitamente delineadas, apenas a suficiente para ele acreditar que ela ali está. A barba que lhe envelhece a cara marca o tempo que inevitavelmente o levará à morte, mas não o preocupa. Quer apenas acreditar na mulher que está deitada com ele, de olhos fechados ou abertos, não o sabe dizer porque o que ele olha é o tecto amarelo, sujo, através das lágrimas que não param de cair. Tem medo apenas que os olhos lhe confirmem que está sozinho, ali. Por isso espera apenas que o tempo da sua barba crescer deixe finalmente de envelhecer o seu rosto e o leve para a morte, apenas para se encontrar, novamente, com a existência da mulher que sonha ou deseja ao seu lado, para poder finalmente olhar sem ter medo, através dificilmente de lágrimas de outro contexto. E os olhos cinzentos fecham, e ela, de olhos azuis, olha para ele e sorri.

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Março 10, 2009

Dá asas às tuas pernas e farás os homens felizes.


Dá asas às tuas pernas e farás os homens felizes. Isto é o que ele pensa enquanto, sentado no banco metaleiro forrado com tinta negra, se embasbaca com a mulher que se cruza no caminho sempre ingénuo dos seus olhos. Mulheres também, pensa ele. Mulheres e homens. Daquele mundo do passeio de um século que não lhe pertence ele parte para os aposentos de tal mulher ideal com asas nas pernas, a mulher ideal que ele vira e tinha à sua frente, no caminho dos seus olhos ingénuos, a mulher que o chamava carnificiosamente com a sua escultura pálida, arredondada e preenchida nos sítios perfeitamente visionados pelo deus criador mais impudico e incasto.
Ele dá graças, em parte, por não passar de um fantasma naquele século, o que o permite deliciar-se com toda uma imagem leitosa, da mulher branca tendencialmente nua à medida que ele espera. A desgraça da outra metade da graça é o facto de tudo aquilo não poder ir além de um festim visual da sua parte – não poderá agarrá-la, explorá-la, conhecê-la e derretê-la como nas fitas cinematográficas que rolam na sua cabeça pensante.
Por isso espera. Espera talvez que ela, já se conhecendo, se derreta sozinha aos olhos do observador, espião, fantasma, estimulando-o sem saber, derretendo-o pouco a pouco sem saber. Mas não. Todos aqueles ideais de prazer imediato que se formaram à sua frente depressa se atrofiaram quando a senhora, demasiado pura para os pensamentos do observador desconhecido, se aproxima da janela e a abre.
Ela é um anjo que engole a luz de fora através do vidro frágil da janela que a protege apenas enquanto não é aberta. Depois disso ela torna-se num anjo caído, com todas as suas preciosidades exibidas em público, em forma de uma estranha entranha sangrenta, quando a mulher demasiado pura para os pensamentos do observador desconhecido tenta voar com as asas que há muito oferecera às suas pernas (e com as quais de facto fizera incontáveis homens felizes).
Ele aproxima-se da janela da desgraça e olha para baixo. Sabe que é hora de partir, a tristeza dos outros sempre foi impedida de ser morta pela inutilidade da sua acção. Pelo menos assim gosta de pensar. Com o tabaco aceso, fuma no ar a conclusão do suicídio de um anjo branco, carnal. Houve alguém que acreditou na pureza de umas pernas voadoras, mas que as matou sem roupa por uma janela aberta.
Dá asas às tuas pernas e farás os homens felizes. Isto é o que ele ainda pensa enquanto caminha pelo passeio, iluminado pela beleza de outra criatura tocada inicialmente pela mão do deus criador mais impudico e incasto, mas eternamente perfurada pela sede de gentil-homens rectos. Não quer saber onde terminará aquela outra moça, da mesma maneira como não se preocupou com a outra. A sua visão não ultrapassa o uso do potencial carnificioso e da libido das mulheres belas que lhe tocam o caminho.

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Fevereiro 22, 2009

O banquinho de pedra.


Pensa sobre nada naquele momento frente a frente com o rio desembrulhado pelo nascer do sol no outro lado da ponte. O céu ainda derrama a cor com a qual ele insistentemente tentou regar as suas células na noite anterior – parece que até se converter em água, aquela coisa que quase o cega acima da sua cabeça o faz não esquecer da ressaca com que ainda tenta absorver o dia. Apesar disso, um sorriso profundamente parvo foi tatuado na cara, um sorriso dirigido a tudo e qualquer coisa, provavelmente apenas um sorriso de “sobrevivi a mais uma noite”. Sim, porque qualquer macho digno de título apenas sobrevive a noites destas, sobre-vive, tornando-se inevitavelmente bêbedo após a temporária “vivência acima da vida”, caindo depois nos braços da sobrevivência biológica que no melhor dos casos acaba com a tinta e a loira inversamente ingeridas.
Mas sentado naquele banquinho de pedra, marcado nos registos divinos como o locus da tríade prazeirosa: orgasmo, alcoolemia, intoxicação; ele julga alcançar ou vislumbrar algo que não lhe é permitido em dias culturalmente aceites. A mensagem na garrafa que viajou pelo álcool, e raramente pelo sangue, e que lhe foi estampada diante dos olhos. Letra por letra, o sobrevivente ainda bêbedo (contudo, crente na ressaca) decifra o estalo epifânico que aquela manhã lhe ofereceu e é atacado pelo maior ataque, que as suas defesas renunciadas não recebem. Todo um filme se desenrola diante dos olhos semi-cerrados, vidrando-o em memórias e predições.
Um único espasmo encerra o livro que lhe foi trazido pelo álcool e o senhor crente-ressacado pega na ausência de razão que ainda tem e parte para a melhor decisão possivelmente retirada de um macho pavóneo como ele. Carregado de uma dignidade casada com o ridículo, deixa-se engolir pelo némesis das suas companheiras de noite, deixa-se afogar no rio ameaçado pelo céu tinto, já um pouco aloirado.
Quanto ao banco, ele deixou de ficar pequeno para ganhar um maior nome e continuou de pedra para manter a sua história – contudo o seu futuro passou a ser conhecido de amaldiçoado, e as quecas inconcluídas, os comas em vómitos e as overdoses famintas substituíram os antigos prazeres registados.

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Fevereiro 19, 2009

Poligamia nas barbas de uma palhaça.


O que ela viu percorreu a razão e ultrapassou-a antes que ela pudesse eventualmente deturpar aquilo que realmente vira, passando directamente para o que ela sempre acreditara ser a maior palhaçada de órgão ou sentido, seguindo a ideia de função, inspiração, guia ou objectivo que lhe era atribuído. Ela nunca acreditou na ideia de algo ser mais daquilo que aparenta apenas porque pessoas querem ou desejam estupidamente que assim o seja. Sempre acreditou e gostou de acreditar num mundo preto no branco... Até ele ter aparecido. Mas tal como ele apareceu e mostrou ou iludiu-a num mundo a cores, depressa o conseguiu arrancar dela através do preto no branco proporcionado aos seus olhos por um espectáculo líbidinoso e ferormónico com uma estranha, já entranhada na altura de toda a visão.
A paralisia da sua estupidificação surpreendida pelo canibalismo libidinoso do outro par entretanto também paralisado, arrastou à sua imaginação o quadro “Poligamia nas barbas de uma palhaça”. O quadro vivo que nunca esperava ver num mundo ainda com cores, que o outro lhe arrancou no momento da pintura.
Quando não acreditava, alguém lhe agarrou no peito e mostrou-a onde estava a inutilidade do órgão ou sentido no qual não acreditava. Surgiu então um mundo a cores no qual ela também não acreditava. Depois, um momento de dança fornicativa entre o seu mundo a cores e outra mulher a preto e branco... Surge então o dilacerar do mundo a ela mostrado, e a reconversão ao mundo do preto no branco.
No entanto, algo lhe aparece na ideia. Os palhaços não são pintados com preto e branco...

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Fevereiro 06, 2009

Better than men.


Não sem antes ver aquilo que não via, lá conseguiu ela incendiar a ponta do objecto fálico, não etéreo, que lhe oferece tanto prazer pelo simples acto da sucção. "Better than men" é a marca de cigarros de alta roda que a menina crescida consome agora, agora que percebeu quem podia ser e quem podia iludir através de uma imagem dela, ou várias, todas elas capazes, diferentes, semelhantes, repetidas, mas fundamentalmente húmidas.
Concerteza que ela não seria a única a vir para uma varanda fumar um cigarro depois de maratonas de rotatividade entre charutos, cachimbos ou mesmo o velho e nem sempre prazeiroso tabaco numa mortalha. Ou em várias. Quando é pouco ou de fraca qualidade. A marca de cigarros de certeza que nasceu de todas aquelas mulheres que, exactamente como ela, precisam de um sabor único na boca que as agarre ao pouco de dignidade e fidelidade ao pequeno amor que ainda sentem por qualquer coisa e raramente alguém, alguém ou alguma coisa "melhor que os homens", depois de uma míriade de sabores e dissabores cuja origem nem sempre se conhece e que muitas vezes se deseja que seja consumido pelo fogo - tal como o tabaco da finíssima qualidade que a bela donzela fuma na varanda, mas que, ao contrário do outro, é mais prazeiroso e infinitamente mais próximo de uma qualquer identidade do que o tabaco molhado e "viril" ou manualmente recto existente nas calças de todos aqueles senhores de alta roda e regentes de sociedades.
Acaba o cigarro e apaga-o, com muitíssimo mais respeito do que quando deixa morrer o cigarro dos outros.
Um dia talvez, e pela extrema vontade com que ao longo de tempos idos e ainda presentes a religião do Senhor nos tentou e tenta iluminar o caminho, a menina donzela, formosa, jeitosinha e melosa seguirá por uma nova estrada, não a dos viris pastores Estaduais, mas sim a da profunda realização pessoal e sentimento quasi divino. A estrada com que muitas campónias, maturas e imaturas, se cruzaram algures e fortunamente durante e ainda a tempo da sua iniciação, corporal para os mais cépticos. Um dia ela andará a fumar não em varandas, mas sim encostada a umas e diversas portas de madeira antiga (genuína ou falseada), uma diferente marca de tabaco, mais de acordo (e ao mesmo tempo em fortuno desacordo) com o tabaquinho embrulhado (e bastante húmido) nas vestes dos carneiros do Único Senhor.
Para além do superior respeito com que apagará um cigarro junto às portas de madeira, pensará para consigo no significado da palavra "amén".
Por agora, o último cigarro da noite foi apagado.

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Janeiro 10, 2009

Achados.


«A cena tem aspecto de ser final. Estamos no interior de uma sala que se parece com a de um cinema. Chão alcatifado, portanto. Eu sentado nesse mesmo chão. Sentado no topo de umas escadas. Estou à espera. Penso saber o que espero, mas apenas a espera me pode confirmar o que espero. O ambiente é o de um filme mudo, com uma banda sonora imaginária. E é esta banda sonora que nos agarra ao ambiente, é ela que nos prende ao momento.
A espera é breve. Ela aparece, no fundo das escadas, deslumbrante. O ar dela é uma mistura de calma com alegria contida. A mensagem é claramente a esperança. A subida das escadas é acompanhada pelo bater de dois corações harmonizados. A subida é feita de vários momentos fotográficos e um tanto fantasmagóricos.
Finalmente alcança-me. Estendo-lhe a mão e continuamos juntos. A banda sonora nunca se cala. Ela é o tema principal da história. É ela que os une.»

03-11-2007

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Novembro 18, 2008

Águas negras de sangue.


Silêncio... A água corre, denunciando a sua presença com um borbulhar suave, assim que cai ao longo das rochas...
A luz que o ilumina, ilumina também a água que já foi pura, convertendo-a agora à sua cor real... vermelho. O vermelho que correu dos seus olhos, caindo pelo rosto até atingir o chão, abandonando o portador da dor. Está de novo frente a frente com o pequeno riacho que já foi parte dele, e sente-se deslumbrado pela magnanimidade destrutiva daquelas águas negras de sangue. Sente-se um vampiro, subitamente abstracto de enfermidades, subitamente amante de uma bela mulher, toda ela um fruto, doce... húmido e inconstante, constante contudo na sua pureza libidinosa e traiçoeira. Uma estranha química reacende-se entre eles, inflamando o desejo de ser possuída e o desejo de a possuir.
Felizmente que o Homem não está dependente apenas das suas capacidades de lobo solitário...
Alguém deixa cair uma linha vinda do Céu em direcção à sua cintura, evitando-o do abismo que, no fundo, sempre andara consigo. A negrura daquele sangue resolveu camuflar-se de novo numa água cristalina assim que viu, vinda do Céu, a Mulher, com a sua mão na sua mão, resgatá-lo do pequeno mar de Tentação...


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Outubro 27, 2008

Orgia de divindades.


Ela estende a mão no peito, como que a segurá-lo. Fecha os olhos e estende a outra mão na terra, tentando agarrá-la. Dos olhos fluem as águas da mágoa que percorrem o pescoço até ao peito, à mão... Dando assim autorização à dor para rebentar pelo coração e gritar pelo seu caminho até à terra, até a outra mão a enterrar. Ela está sozinha, ao luar, junto ao lago, a derramar a sua solidão.
A seu lado, mas acima, um casal observa, pálido e calmo, os gritos que pelas águas ecoam. Esperam alguma coisa, alguma decisão... Sobre um destino. E sobre o destino são iluminados. Até Eles descem quatro «Homens» e quatro «Mulheres» que se sentam, assistindo aos gritos e à solidão.
Cabeças baixas em silêncio. Uma lâmina é mostrada à lua e brilha enquanto percorre o caminho até à mulher, até mergulhar num luar feito de seda e carne, enterrando a dor, a solidão... Gelando as lágrimas e cristalizando o olhar.
Aqueles que a rodeiam viajam para de onde vieram, passando pela luz da lua e sobrevoando o espelho mergulhado no fundo do lago. Através dele vêem os tons de vermelho que são reflectidos pela magia de um corpo.

Vejam-nos. Olhem para baixo como se fossem Eles.
As folhas flutuam, erraticamente, graças ao álcool que impregna o ar vindo do bafo dos deuses. Deliciados pela maravilha de uma semente plantada, Eles e Elas festejam bebendo, dançando, gritando e fornicando.
A árvore nasce da semente e ninguém repara - celebra-se a semente e não o fruto. O festim continua, mergulhado em sede de espírito e de carne, saciada em vinho e sexo.
Mas a árvore tem frutos... dois. Que caem, nascidos na e daquela orgia de divindades.
Ele perde-se e mata-se, alheio na sua estupidez e inutilidade.
Ela é morta por uma dor que lhe cortou o coração e o derramou em lágrimas...
...enterradas por uma lâmina de deuses embriagados.


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Setembro 26, 2008

Beijem a flor que vos une.


Restos a mais para deixar de viver. No centro de todo aquele bafejar calmo da natureza há alguém que grita mais alto. Mais alto do que aquele silêncio mortuário. Os tambores erigidos pelo grito instalam-se levemente em volta dos dois mantos de terra, preparando as almas para o que vem aí. Dois copos de vida foram plantados ao lado das duas campas. Os tambores tremem a terra e fazem os mortos erguer... Beijem a flor que vos une.

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Obviamente que o sol se está a pôr.


Ele abre as portas e o ambiente que lhe entra imediatamente na alma é igual ao inscrito na sua memória. Desejava que ela ainda ali estivesse e que tudo não tivesse passado de um sonho mau. Contudo, tudo naquele bar lhe dizia o que ele não queria saber - o seu coração estava caído naquele chão, ainda com vestígios da rega de álcool, sozinho e a esforçar os seus últimos momentos. A última lágrima liberta-o.
Obviamente que o sol se está a pôr. Vemos dois pequenos indivíduos inconscientes a aproveitar o pouco tempo de luz que resta naquele pequeno campo, saltitando um atrás do outro, saboreando a segurança que os canídeos, que ali não existem, lhes dão. Sorte a deles, azar de todos aqueles que não a vêem.
 
Não conseguia mais. Tinha chegado à conclusão que, daquela flor pertencente aos dois, não viria mais vida. A água com que tinha vindo a ser alimentada equiparava-se gradualmente à imundice proveniente dos esgotos. Tinha chegado a hora da planta morrer, e tinha chegado o momento dela abraçar a liberdade que lhe era devida.
Olhando para o tecto deitada na cama barata e também para um homem deitado do seu lado, ela abraçava o novo futuro, tentando apagar de vez as poucas velas que iluminavam o passado.
Uma lágrima escorre por uma das velas não apagadas e a cera dá-lhe forma. Quando se imobiliza, as luzes apagam-se e a escuridão toma conta do quarto.
Obviamente que o sol se está a pôr...


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Setembro 02, 2008

Sozinha, esperava por mim.


Os carris guiam-me o caminho que sigo, aparentemente todos os dias, penso eu. Silencioso e monótono ele guia-me o pensamento lá para fora, para onde o denso nevoeiro me quer esconder alguma coisa. As ondas por baixo dele choram por mim aquilo que ainda não sei.
Não me lembro porque estou sozinho, naquela carruagem, vazia. Não me lembro porque sou guiado por carris que, descubro agora, afinal desconheço. Não são estes que me levam todos os dias, são os que me têm sempre conduzido.
Aquele mundo está vazio... E não sabendo porquê, eu inclino-me a oferecer-lhe companhia. Por dentro, o coração enfraquece. Ao meu lado, sentado, aparece um cravo branco alertando-me para alguma coisa que o nevoeiro insiste em esconder. Percorro o mundo lá fora e ele inunda-me de branco, um branco desfocado, gradualmente... O comboio abandona finalmente os carris e eu viajo, com o cravo branco, acima do nevoeiro branco, recebendo o prefácio do que está escondido.
Perco todas as imagens e é-me mostrado um novo cenário. Negro. E não estou sozinho agora. Uma multidão olha fixamente em frente, em lágrimas, através de mim. Não dão pela minha presença...
De olhos para os meus, não me conseguem ver.
Sinto que algo me abandona, mas o nevoeiro ainda não me deixa ver. Chamam-me e eu olho para trás, para onde todas aquelas pessoas olham fixamente, em lágrimas. Transformam-se em estátuas, pois a última imagem que tenho delas foi tirada antes de me virar e ver um cravo branco, plantado num foco de luz, abandonado naquele campo.
Dor. Lágrimas. Uma infusão de destruição é consumida pelo meu corpo, até que o coração se estilhaça. Os joelhos enterram-se na terra, desistindo finalmente daquele fardo que fui eu. Tudo faz sentido agora.
Novo cenário. Começo novamente sozinho, sem me lembrar como fui para ali. Vejo apenas os carris que me guiam pelo mar, rodeados de névoa. Ao fundo vejo um portão, fechado. Caminho um pouco e vejo-a a ela. Sozinha, esperava por mim, às portas do mundo.
No campo das minhas estátuas, crescem agora duas flores, lembrança de alguém que por ali passou, mas que resolveu partir.


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Julho 30, 2008

A última lágrima.


De volta à taberna. O ambiente é o mesmo, a bebida a mesma, a esperança a mesma. Mas quarenta anos já se desenrolaram. Lá fora. Sem ele saber...
Em frente dele, sentados, dançam as mesmas sombras, vazias, que sempre o acompanharam, e, sempre com a maldição da esperança, ele bebe o sangue da alma à espera que os espectros se revelem.
Ele espera. Mas entretanto a pedra transformou-o. Já não conseguirá luz no meio daquelas sombras flutuantes, pensa.
Pega no último copo e levanta-se para ver o mundo que perdeu - ou para perder a única coisa que o mundo lhe deu...
As portas abrem-se, ele caminha, mas não as alcança. Entrega-se finalmente nos braços do desespero, mas a morte resgata-o.
Estendida no chão, às portas do mundo, temos uma velha alma, morta, com o último gole de vida ainda a escorregar-lhe pela garganta. A última lágrima purifica a madeira que a rodeia, assim que dos espectros nasce uma luz. A luz que esperava.
O pano cai e a tocha morre, assassinando a luz ainda virgem.
Trevas.

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Julho 09, 2008

Um sangue dourado.


A estrada é muito velha, carregada de podridão, conspurcada, e com a morte vestida de negro a caminhar sob as sombras dos candeeiros. À volta destes voam traças, à procura de algum calor que as guie, e à volta delas dançam morcegos, alimentando um festim. Os pombos, sinal de degredo da cidade, bicam toda a porcaria lançada pelas janelas da alta sociedade. A noite, em contraste com a luz mórbida presente naquela estreita rua, revela uma estranha neblina a flutuar mais à frente, à altura de um homem. A Lua só lá está para quem a vê, e nesta cidade raras são as pessoas que têm olhos para a ver.
Um personagem entra em cena, sozinho, naquela rua sem luz. Tem uma bengala que define a sua recente, aparente, classe social, com um fato preto rigoroso que deixa um peito branco iluminar o caminho em frente. Somente o seu terceiro apoio de madeira e metal define o compasso que se ouve por ali. Caminha confiante, e sorridente, aparentemente sem conhecer a estrada debaixo dos pés ou o ambiente à sua volta.
Uma janela, lá em cima, abre-se para mostrar uma bela mulher a tentar arejar o peito com tabaco de má qualidade. Os olhares cruzam-se e prendem-se, percorrendo os desejos pecaminosos de cada um. Contudo, ela sabe o que o espera (afinal, é o que espera a todos os de alta roda que por ali vagueiam) e limita-se a convencer-se de que vai ser a última mulher a saboreá-lo.
Na sua estúpida ignorância, ele sorri para as duas amigas de peito que tentam espreitar pelas vestimentas da bela mulher. O fim da rua está apenas a meia dúzia de passos, e para lá deles a escuridão reina. Determinado como vinha até agora, larga a mulher no alto e abraça a escuridão fomentada pela impotência dos candeeiros.
A Lua brilha, no escuro, através de um objecto metálico empunhado por um outro personagem - rafeiro, de acordo com os olhares avaliadores do «menino» com a bengala. A morte voa com aquela lâmina e, guiada pelo rafeiro, enterra-se na garganta da arrogância, deixando correr pela sarjeta um sangue dourado de um homem com vendas nos olhos.
Apenas mais um a percorrer um curto caminho de «sucesso» que acaba sempre no final daquela rua, pelas mãos do personagem eternamente marginalizado pelos prazeres de uma sociedade de alta roda. Aos poucos, o submundo enche-se do ouro de meninos de sangue puro.
Entretanto, os morcegos continuam a atacar o festim de traças que, assim, não conseguem a luz na escuridão.

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Julho 02, 2008

Observações.


Ela murmura ao sabor do vento, silenciosa. Ninguém a ouve, nem mesmo quem ela vai buscar. O Sol esconde-se vestido de vermelho. Uma pequena folha solta-se e acaba por pousar aos pés de alguém. Passado.
O vento, violento, empurra uma pequena multidão para os seus destinos. Um peão na multidão sou eu, cego a quase tudo o que me rodeia, concentrado em pensamentos vários e numa pequena chama que, espero, me aqueça os pulmões com ares reprováveis pela lei.
Uns quantos personagens, conservadores (teóricos) de umas quantas leis, discorrem num amontoado de conversa comum, fazendo crer que nem eles próprios estão atentos àquilo que também não estou.
É quase noite, e para eles chegou a hora de actividades lúdicas. Entretanto, uns quantos já se foram embora, alegando a hora da queca à mulher ou uns intestinos pedindo algum trabalho. A mulher no meio deles alega exactamente o mesmo.
Actividades lúdicas no caminho de outros personagens. Sorteios. Eventualmente, um desgraçado acaba por ficar sozinho, a sorte ausentou-se com os restantes que foram embora. Entretanto, o tempo de uma segunda chama para os pulmões chega, mas sou interrompido por um condutor de destinos sobre rodas.
Pela janela observo o mundo que abandono temporariamente. Lá fora, um espantalho finge tomar conta de alguém que não lhe pertence, estendido no chão, embalado, vestido de branco.
Justificada a sua presença pelas quecas e intestinos fartos dos (e das) camaradas, o espantalho está ao serviço da lei, sozinho, a tomar conta do corpo de alguém que decidiu serem horas de fazer as malas, até que outro alguém venha buscar o corpo esquecido, vestido de branco.
Entretanto a noite chega e, com ela, eu chego a casa. Presente.

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Junho 30, 2008

Cinzas e gelo.


Está frio, uma neblina gélida envolve o ser assexuado sentado no seu trono de prata. Canta, sem roupas, uma melodia fúnebre para quem o ouve, olhando para o vazio. À sua volta, uma multidão escuta o seu lamento em silêncio, enquanto espera pelo fim. O mundo é pequeno e cinzento, coberto de cinzas e gelo. O senhor do mundo acolhe aquelas almas em pecado, no fim do mundo. Chamam-lhe Deus, e o choro pela Vida é a Sua condenação, até Ele calar a sua melodia.
Sejam bem-vindos.

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Junho 15, 2008

O passado.


Os seus olhos vêem o que ele olha, ao longe, no mar. Longe, mas perto, suficientemente perto. O vento negro sopra-lhe a cara branca, pálida, gélida, ao mesmo tempo que arrasta as negras notícias no corpo de uma mulher, a mulher. Uma melodia crescente inunda-lhe as lágrimas que lhe cegam os olhos... De olhos fechados, sente a melodia fúnebre que lhe bombeia o coração. A flor do seu sentimento nascerá a seus pés, alimentada por mágoas vindas do mar.
Ela abraça terra, quieta. Ele abraça-a. Morta.
Ele conhece pouco, mas vive muito. Acredita no que vê e no que não vê. À sua volta, pessoas que vivem pouco observam-no, silenciosas. Por fora. Cada um à sua maneira, conhecedores de Tudo, invocam o que conhecem. Olham para os Céus, para a Terra, para as Plantas, para as Pessoas...
Ele apenas olha para quem os seus olhos roubou. Ela sente-o, e tenta dizer-lhe o que sente. Ele sonha...
De facto não conhece muito. Vive sempre à espera, e nessa espera caminha sempre de frente para ela, ofensivo.
Acorda. «Acho que sonhei com o futuro», diz ele. «Não... Apenas relembraste o passado», diz ela.
E sorri.

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Junho 08, 2008

Bêbeda e sozinha.


Ouçam o silêncio... Magnífico. Num mundo a manchas de cinzento, uma mulher de vermelho dança, sozinha. De alguma forma, as estradas vazias daquela maneira, em conjunto com árvores em fileira, dão-lhe uma sensação de conforto incrível. Ela dança porque se sente sozinha. O mundo rodopia com a ajuda do néctar sangrento, mas ela dança ao sabor da estabilidade. Nada há melhor do que um coração a dançar livre, ao sabor de um silêncio de alívio. Ela apenas quer continuar a regar o sangue que lhe corre nas veias e dançar. E dançar.
Dançar até o vento a encaminhar pela estrada que as árvores tão grandiosamente iluminam. Bêbeda e sozinha, continua a dançar pela estrada. Ao sabor da noite, linda.

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Maio 24, 2008

Flor.


«Num campo morto, se encontrares uma flor, cuida-a. Não a deixes morrer. Porque num campo morto não existem flores.
Se existem, não são deste mundo.»

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